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Preconceito e Igualdade

Preconceito e Igualdade

Admitindo-se o preconceito como componente irracional, a única maneira de combatê-lo seria partir de um critério igualitário.

Eliminar o preconceito contra o outro o tornaria igual a mim. Essa concepção idealista é o “relativismo cultural” ou “multiculturalismo” – correntes de pensamentos que partem do princípio de que devemos aceitar todos os outros comportamentos por mais desviantes que pareçam em nossa sociedade.

Essa filosofia, postula uma impossibilidade de estabelecer um ponto de vista único na interpretação das culturas e mesmo um território comum. Viver num mundo pós-moderno, em que tudo é relativo, é complicado não admitir que as certezas mais íntimas não passam de princípios pessoais, que valem tanto quanto os de qualquer outra pessoa, por mais exóticos e intragáveis que eles lhe pareçam (Bernardo Ramirez).

 A ideia é interessante, sempre se procurou o ideal de igualdade, mas também desde os primórdios as nossas preocupações são: sexo, território; hierarquia. Como vamos aceitar o conceito de igualdade se estaríamos abrindo mão do poder e da hierarquia?

O poder parou de ser o atributo exclusivo de algumas castas, mas ainda não temos liberdade: a paixão de dominar se alastra. Existem ainda formas de controle do poder dominante, elas são menos autoritárias e diretas, mas elas mantêm a hierarquia.

Os atuais privilegiados usufruem de seu poder. Eles legitimizam seu status pelo esbanjo e pela ostentação. O autor Contardo Calligaris se pergunta: Afinal, por que não desejariam ser reconhecidos por sua generosidade e por sua responsabilidade social? Não é assim que eles se tornariam propriamente uma elite? Sem dúvida; mas, para isso, seria preciso que os neoprivilegiados mudassem sua visão do mundo. Seria preciso que eles constatassem, ou melhor, sentissem, que a experiência humana (inclusive a deles próprios) é mais complexa do que a tarefa de melhorar, ostentar status negar o outro pelo preconceito. Ser humano não precisa se afirmar, se “é”.

Segundo Calligaris, no Brasil por ser um país de alta mobilidade social e acrescentando o caráter conservador da modernização brasileira, gera “elites” inseguras, na procura de uma maneira definitiva de confirmar o privilégio que elas acabam de conquistar. A solução que elas encontram é um paradoxo: elas se afirmam pela ostentação (como as “elites” modernas), mas procuram meios de garantir a exclusão dos menos favorecidos (como as elites tradicionais). Os menos favorecidos são envergonhados, excluidos e humilhados gerando a impossibilidade de respeito e de igualdade.

Uma coletividade pode conviver em paz apesar de grandes diferenças sociais e econômicas, mas com a condição de que ela não exclua e envergonhe uma parte de seus membros.

Como funciona a vergonha em geral na nossa sociedade moderna?

Quando agimos errado, a vergonha não nasce do receio de perdermos nossa identidade, mas da previsão de que seremos malvistos, reprovados.

A vergonha moderna é o sentimento de perda de amor: os outros não gostarão mais de nós ao evitar errar estão cuidando a reputação; se preocupando com os outros. Assim, a vergonha é um péssimo regulador moral, pois esta baseada na opinião dos outros, sendo que esses outros (como falávamos no inicio do artigo) normalmente são o grupo próximo, os parecidos a mim e não qualquer outra pessoa. 

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Cecília Urbina, psicóloga, CRP/12-0957 Membro fundadora da CERES (Associação Criciumense de apoio a saúde mental)

Calligaris, C.,101 Crônicas. O Aborto dos Outros. Privilegiados Sem-Vergonha. A Vergonha de Ser Pobre. Os Iks, Kitty Genovese E O Engenho de Dentro. Culpa e vergonha, Os 120 Dias de sadoma
O Multiculturalismo Revista Vida Simples. Editora Abril. Dez 2010 edição 99
Ramirez, B., Preconceito, eu? Rev. Vida Simples Dez 2010 edição